Histórias


Hoje, 17 de maio, é a data de aniversário de nascimento de meu pai.
Minha irmã e eu nos sentimos afortunadas por termos nascido filhas de Edmundo Salgado, uma pessoa jovial, erudita e também, na tradução mais altruísta da palavra, instável.
Mundinho, anos 50.
Mundinho foi um homem que trazia muitas histórias dentro de si, e as contava de uma forma peculiar, fazendo as palavras dançarem, em meio a fumaça de seu cigarro, num desfile contínuo de fascínio e risadas.
Eram histórias do império, de onde os homens desenraizavam os pés de seus mundos, para inventar novos caminhos...,dos anos 20, as quais ele ouviu de seus pais, sobre a guerra e sobre o rádio no Brasil...,dos anos 30, a voz revelada de Greta Garbo, a outra guerra..., dos anos 40, Casablanca , e os sonhos de sua meninice...,dos anos 50, o esquisito rock and roll e o que sua juventude logrou...,dos anos 60, um homem na lua, e os fatos no vídeo-tape ..., dos anos 70, ruídos coloridos das discoteques e as caronas para os hippies...,dos anos 80, "onde fica o Tocantins?" e as  sessões de cinema  na sala de casa com sua família...,dos anos 90,  videogame, e de repente  um coração que parou de bater...
O sufoco abafado pelo fim de suas histórias, também sinto pela nau que parte para mais longe, década após década.
Tantas coisas que ouvi e vi, e as que não vi, todas ficaram em mim e já se tornaram minhas histórias também, porque sou marinheira desta mesma embarcação...esta que está partindo dia após dia... coisas que não voltam, já não mais são, e talvez não haverá quem as tenha visto.
Meu pai usava um perfume argentino chamado Chambley. Os antigos dizem que a Argentina fez duas maravilhas: o tango e o Chambley... O tango ficou.. Foi adaptado, transformado, eletronicamente dançado, mas ficou... O  Chambley não ficou. O criador do perfume morreu e a fórmula do Chambley se perdeu..
E a nau se vai... As histórias contadas já me pregam peça ... conteúdo confuso de quem achou que foi ontem que sentiu aquele perfume e ouviu aquela história  do encontro com o Araken Peixoto.
Mundinho conheceu Araken no Clube Paulistano, lá nos anos 50. Araken foi um trompetista muito talentoso. Depois conheceu seu irmão mais novo, Cauby Peixoto, e passou a ser amigo dos dois... Nos anos 60 até ganhou esse Lp do cantor.

LP, 1965, com dedicatória
E as décadas passam... Hoje, aniversário de meu pai, quase ontem Cauby se foi...Cauby também, para sempre, o professor doutor, gentil e talentoso!
E não há quem segure essa embarcação, onde estão contidas as histórias de tempos lindos e abundantes, que não voltam mais...



Somente a fragrância do Chambley na epiderme da lembrança se domicilia... Cheiro de meu pai!

Meus amigos, descansem em paz!



Diva de Montalbán

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