Cara de leão


Quando penso em minha infância, sempre um sorriso aberto surge em minha face.
Fui uma criança maravilhosamente feliz, livre e cheia de amigos.
Tinha os amigos para brincar nos dias de chuva dentro de casa, os amigos que podiam brincar na rua até tarde, tinha amigos que só podiam brincar em frente às suas casas, os amigos para andar de bicicleta até onde Judas perdeu as botas...Transitava entre todos eles e fazia a ponte para que alguns deles pudessem também ir e vir... Nem sempre se tem a sorte de trazer esses amigos de infância para a idade adulta. Em especial falarei aqui de uma amiga que representa 100% da minha infância feliz.
Cachorro-quente, sorvete escondido da mamãe, pipoca na sessão de cinema na sala assistindo O Homem Elefante, andar de mobylete e levar bronca da polícia, descer ladeira com bicicleta sem freio, pescaria na quermesse, andar atrás do boi-tatá, assinar procuração em branco...Ela começou a ser minha amiga quando eu tinha uns 4 anos, embora sempre me xingasse de cara de leão, e isso acabava em briga. Ficamos super amigas quando fiz 6 e fui acompanhá-la em uma missão secreta envolvendo peixes. Fomos crescendo e amizade foi se tornando absurdamente necessária para vivermos. Tornamos-nos cúmplices quando, depois de eu implorar e chorar muito, resolvemos que ela não contaria para mamãe que eu estava indo mal na escola.
Toda minha vida tive o presente de ter uma super amiga que também é minha irmã.
E minha irmã me conhece tão bem, sempre chega com surpresas maravilhosas para mim. Hoje foi um desses dias.
Nosso pai tinha uma gravata borboleta de cetim com presilhas , daquelas bem raras e antigas. Coisa fina, como dizíamos...  Esse objeto me causava fascínio quando criança e sempre eu via minha irmã abrir a gaveta dele e  retirar a tal gravata para brincar  de teatro com ela..
Certa vez, eu mesma apanhei essa gravata  e a coloquei em mim.. Fui garbosa brincar.. brincar de escalar um barranco no mato.  Penso eu, que escorreguei e a gravata se perdeu. Notei apenas em outra vez que fui  apanhar novamente a peça e ela não estava mais lá.
Meu pai sempre disse: – Sumiram com minha gravata! 
No meu canto ficava quietinha com medo de esboçar alguma expressão de culpa, e  por sua vez, minha irmã que não se lembrava também se foi ela a responsável pela perda do acessório, permanecia discreta...  
O tempo passou, a vida viveu e sempre em meio a risadas nós nunca soubemos quem realmente perdeu a gravata!
E essa semana , minha irmã me surpreendeu  -Olha o que eu trouxe para você!– disse ela retirando de sua bolsa um pequeno objeto dentro de um saquinho plástico.
Me presenteou com uma gravata idêntica àquela que papai tinha. Conseguiu a peça em uma bazar de antiguidades.
Quando coloquei as mãos na gravata, meus olhos se encheram de saudade...
Toda a minha infância feliz tinha passeado em meus pensamentos neste instante.
Dádiva é perceber que minha irmã está presente nas minhas melhores lembranças.
gravata borboleta de 1950





"Irmança", de tudo rindo ...tombo no bamba, chuva no barco viking, compras na lojinha, doces no Kakubo, topada na calçada, perder o carro  no  estacionamento do Extra, sapataria,  briga na casa da mãe, correr com o cachorro, fazer música no violão, rir do Evaristo Costa, almoço no baixinho, assistir filme de terror  ," na decida não posso parar", segredo no ouvido do coelhinho da páscoa, tocar o dia com o dedo, bater pêra na parede, "xabe lá no cowboy"... 
Para a  nossa infância, a gente volta todo dia  ;)

Diva de Montalbán

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